Vamos falar sobre o luto? Conheça algumas iniciativas

Conheça algumas iniciativas que ajudam a elaborar o luto e acolher os enlutados

Todos nós, em algum momento de nossas vidas, vamos vivenciar o luto. Ainda assim, o tema não é tratado de forma aberta e espontânea em nossa sociedade. Cobra-se uma recuperação rápida dos enlutados, não se sabe como acolhê-los, e muitas vezes, no caso do luto parental (quando se perde um filho), os pais se veem sozinhos em sua dor porque os amigos, ao não saberem lidar com a situação, optam pelo afastamento. Mas falar sobre o luto é importante para a elaboração da dor.

Alguns projetos dedicam-se, justamente, a dar espaço para que as pessoas falem sobre seus lutos. Um deles é o “Vamos falar sobre o luto”, que se classifica como “plataforma digital de informação, inspiração e conforto para quem perdeu alguém que ama ou para quem deseja ajudar um amigo nessa etapa tão difícil. Uma tentativa de romper com o tabu e tornar a experiência menos triste e solitária”. Na página do projeto, é possível encontrar referências de grupos de apoio online e presenciais, histórias de enlutados e artigos sobre o tema, visando munir de informação e acolhimento quem tanto precisa de suporte.

Outro exemplo é a ong Amada Helena. Localizada no Sul do país, conta hoje com vários projetos focados na transformação social acerca do luto parental. Entre seus projetos estão o Dia das Mães de Anjo, que visa o acolhimento direto às famílias, através de uma tarde de programação voltada especificamente para elas, com atividades culturais, bem como falas sobre o processo de luto e o Encontro Multiprofissional, projeto dedicado a sensibilizar profissionais e estudantes da área da saúde, assim como demonstrar o impacto de um atendimento bem preparado após a perda e a importância do autocuidado.

Como deve ser a comunicação entre um profissional da saúde e seu paciente?

Cada gesto conta na comunicação entre paciente e profissional da saúde

“O simples fato de o doente se sentir compreendido já é terapêutico”. A frase é do médico, psiquiatra e professor universitário Julio Machado Vaz em entrevista ao site português Sapo LifeSytle. A comunicação terapêutica, seja ela no cuidado de quem está no hospital provisoriamente ou sob cuidados paliativos (no hospital ou em casa), merece destaque. A forma como o profissional da saúde se comunica com o paciente tem total relação com a fluidez do tratamento, e, muitas vezes, contribui para um quadro de memória. É preciso estar atento à comunicação verbal e não verbal.

Nas palavras de Vaz “A relação médico-doente deve ser o encontro entre dois sujeitos em que um é especialista em doenças e o outro na sua doença. Ambos têm modelos explicativos para as queixas. Da sua articulação nasce uma aliança terapêutica que permite decisões partilhadas quanto ao melhor tratamento”.

Cuidados paliativos: alguns pontos de atenção para quem deseja atuar ou já atua na área

A importância do preparo para quem deseja trabalhar com cuidados paliativos

Segundo a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), atualmente existem hoje no Brasil 172 equipes atuando na área. De um total de 80 países, o Brasil ocupa a 42a posição no ranking de qualidade de morte realizado pela empresa britânica Economist Intelligence Unit.
Apesar ainda da pouca quantidade de equipes em atividade, considerando-se as dimensões do país, o número de pessoas atuando com qualidade em cuidados paliativos vem crescendo. Dados da ANCP mostram uma alta de quase 50% em um período de dois anos.

O tema “Cuidados Paliativos” reuniu líderes de diversos países para o 16o Congresso Mundial de Cuidados Paliativos da EAPC, em Berlim, em maio de 2019. Com o tema “Cuidados paliativos globais, moldando o futuro”, o evento trouxe à tona questões como a própria definição do que são os cuidados paliativos, como garantir a equidade no desenvolvimento de Cuidados Paliativos para as populações de países de baixa e média renda, bem como para grupos marginalizados (encarcerados, refugiados, pessoas em situação de rua, entre outros).

Luto gestacional: é preciso respeitar e acolher mães e pais

Luto gestacional é um tipo de luto não reconhecido

Mães e pais que perdem seus fetos de forma indesejada são pouco ou quase nada acolhidos e vivenciam um luto não reconhecido

Segundo reportagem do jornal O Globo, uma em cada quatro gestações acaba em morte fetal, ou seja, em aborto espontâneo ou no período perinatal (após 22 semanas de gravidez). Pais e mães que perdem o feto de forma espontânea, porém, são pouco ou nada acolhidos. Há hospitais que entregam o bebê para sepultamento em sacos plásticos pretos. Como diz a reportagem “instituições médicas, profissionais de saúde, a legislação e até a sociedade fecham os olhos para o luto gestacional”. É urgente ampliar o debate, mudar comportamentos e acolher quem passa por essa dor devastadora.

Na reportagem, o jornal aborda o delicado e acolhedor protocolo canadense que inclui como deve ser a atuação da equipe médica junto à família, como acomodar e o mais importante: como criar memórias que possam ajudar na elaboração da dor. O hospital prepara uma espécie de caixa de memórias, com uma mecha do cabelo do bebê, coleta das digitais, pulseirinha, roupinha e uma foto dele. Se a família não quiser pegar a caixa naquele momento (impedidos pela dor), ela é guardada para o momento em que desejarem resgatá-la.

Transtornos mentais e suicídios crescem entre PMs

Aumenta o número de casos de suicídios entre policiais

É preciso cuidar dos sobreviventes enlutados para que novos casos não ocorram, agravando ainda mais o problema

O Brasil tem hoje aproximadamente 425 mil policiais militares. Um trabalho de extrema responsabilidade e, por isso, bastante desgastante tanto física quanto emocionalmente. O resultado desta combinação são altas taxas de suicídios e transtornos mentais, segundo apurou reportagem da Exame. De acordo com a matéria, em São Paulo, por exemplo, estado com o maior efetivo policial do país (93.799 agentes),120 policiais militares cometeram suicídio entre 2012 e 2017.

A publicação entrevistou o pesquisador de segurança pública Paes de Souza, doutorando da Universidade de São Paulo (USP), cujo tema principal é a inadequação da formação policial para lidar com a pressão da violência cotidiana. Ele destaca que “o treinamento exigente – e muitas vezes abusivo – desde a entrada na corporação prolonga-se em um cotidiano de rigidez hierárquica e intimidação, agravando o estresse, o medo e a angústia inerentes à profissão. Quase sempre vividos em silenciosa solidão”.

Inteligência emocional se aprende na escola? Como educadores e psicólogos podem ajudar aquele aluno “difícil”?

"É preciso ter paciência e insistir porque a escola pode ser a segunda chance daquela criança estabelecer uma relação mais segura e, portanto, mais saudável com o mundo"

Na Universidad Complutense de Madrid, Rafael Guerrero é um dos únicos professores a ensinar aos seus alunos do Magistério – e que, portanto, serão futuros professores – técnicas de educação emocional. O professor realiza este trabalho de forma voluntária, já que a disciplina não consta na grade curricular, pois acredita que “muitos dos problemas dos adultos se devem às dificuldades em regular as emoções é isso não é ensinado na escola”, afirma. Assim, ele se empenha em ensinar futuros professores a entender e regular suas próprias emoções para que possam orientar crianças e adolescentes nesta mesma tarefa.

Para o jornal El País, Guerrero destaca ainda que as crianças que não aprendem a lidar com suas emoções, “ ao se tornarem adultos, têm dificuldade de se adaptar ao ambiente, ao trabalho e às relações pessoais”. Assim, perpetua-se um ciclo negativo iniciado muitas vezes na infância e que poderia ter sido modificado de forma positiva no ambiente escolar, com o apoio de educadores e psicólogos.

Não existe ex-mãe, ex-pai ou ex-filho: as conexões são eternas

Conexões entre pais e filhos permanecem após a morte

A perda de um filho na gestação é um luto não reconhecido

Uma mãe do interior de São Paulo perdeu uma de suas gêmeas ainda na gestação e resolveu homenagear sua filha com um ensaio fotográfico. As imagens, de uma doçura e profundidade tocantes, retratam a irmã recém-nascida ao lado de representações da irmã que não sobreviveu.

A mãe também escreveu uma carta à filha que partiu na “voz” da irmã que nasceu, falando sobre os vínculos entre as duas, a vontade de que permanecessem sempre unidas de alguma forma.

O luto gestacional é, infelizmente, um luto não reconhecido. Na concepção do Prof. Dr. Kenneth J. Doka, luto não reconhecido é quando a pessoa não tem seus sentimentos validados pelo próximo, como se não pudesse ou não devesse sentir o que está sentindo. No caso do luto gestacional, não se compreende como a pessoa pode sofrer por alguém que “nem existiu”, ou ainda comete-se o erro de dizer que a pessoa “tem outro filho” ou “pode ter mais filhos”, negligenciando-se, assim, a dor daqueles pais e irmãos e não se atentando para o fato de que uma pessoa não substitui outra.

Eu posso me sentir em luto quando alguém famoso morre?

“O luto não reconhecido é um paradoxo e por isso pode ser intensificado. A pessoa vivencia o luto, mas os suportes sociais usuais estão ausentes”. Kenneth J. Doka

Na última segunda-feira, recebemos a triste notícia da morte do jovem cantor Gabriel Diniz, que ficou famoso com sua música “Jennifer” e também recentemente da cantora Beth Carvalho. Veículos de comunicação de todo o país noticiaram as despedidas de famosos e de fãs de todo o Brasil que quiseram render as últimas homenagens às celebridades. Mas é possível sentir luto quando alguém famoso morre?

As celebridades – atrizes, atores, cantores, entre outros profissionais – fazem parte, de certo modo, do nosso cotidiano. Ouvimos suas canções, acompanhamos séries, filmes, novelas e, por meio de sites e blogs, sua intimidade e relacionamentos. Acabamos por construir algum tipo de relação com essas pessoas, seja por admiração ou curiosidade. Mas a morte também acomete as “estrelas” e por vezes nos sentimos desorientados, sem saber se “podemos” nos sentir tristes quando um famoso morre, afinal, esta pessoa não fazia parte “de fato” de nossas vidas.

O luto por uma celebridade é um tipo de luto não reconhecido, termo cunhado pelo Prof Dr. Kenneth J Doka, professor de Gerontologia na Universidade de New Rochelle, Consultor Sênior da Hospice Foundation of America e especialista em temas relativos à morte, morrer e luto, com diversas obras publicadas. Segundo Doka, “a definição de luto não reconhecido fala de uma perda que não pode ser aceita socialmente, abertamente reconhecida ou ter seu luto vivido publicamente.

A humanização na Saúde passa pelo investimento em estrutura e na capacitação dos profissionais

A capacitação do profissional da saúde deve ir além da técnica, envolvendo a dimensão humana

“Respeitar a individualidade e emoções do enfermo é fundamental para estabelecer um vínculo de confiança entre paciente e cuidador”
Professora Maria Julia Paes da Silva

Todos sabemos que a Saúde Pública no Brasil carece de mais cuidados. Pesquisa do DataFolha de 2017, encomendada pelo Conselho Federal de Medicina, mostrou que mais da metade dos brasileiros (54%) avalia o atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) como ruim ou péssimo. É preciso investir em tecnologia, estrutura e capacitação dos profissionais.

Quando falamos em capacitação, vamos além do treinamento em manuseio de aparelhos e sistemas. É urgente mostrar a necessidade de se conectar com o paciente, mostrar-se empático a sua dor e seu momento, ou seja, atender sem perder a dimensão humana.