Artigos, Experiências pessoais

Covarde

deixando de crer em deus
Ilustração do texto: Covarde

 

Um ano antes do meu marido morrer, eu tinha ido para Lavras da Mangabeira, no sertão do Ceará, a cidade da minha família, para ver o enterro do meu tio Miranêz. Vovó teve dez filhos e, aos seis primeiros, deu nomes que começam com Mir: Miranilde, Mirialdo, Miraneudo, Miranildo e a minha mãe, Mirian, que no Ceará, fala Miriã. Na época dos quatro últimos filhos, vovó radicalizou: vieram Pedro e José. E também Edna e Edinardo, que fizeram a transição entre os grupos dos com e sem Mir.

Eu tenho ainda um tio chamado Brilhante. Mas ele é filho de vovô Fiel com outra senhora. Fiel era o apelido de vovô na cidade, porque ele era muito honesto. Fiel, vejam só, teve ao menos outros três filhos fora do casamento. Na minha família tem a conversa de que vovô também é o pai do Zé Ramalho, o “Avorrai” – que na verdade, é “Avô Rai”, de avô Raimundo, o avô dele; que não é o pai de vovô. O tio Miranêz era a cara do Zé Ramalho.

Artigos, Material científico

Sobre luto não reconhecido e o papel de quem cuida do enlutado

Luto não reconhecido
O luto não reconhecido

O luto não reconhecido, termo cunhado por Kenneth Doka, é aquele no qual o enlutado tem vedada a oportunidade de vivenciar seu luto. Isso se dá por uma restrição da sociedade ao seu tipo de luto, como em relações não validadas ou aceitas; ao tipo de morte, por suicídio, por exemplo; aa características do próprio enlutado, como crianças e idosos. Os enlutados também podem exercer essa restrição em relação ao seu luto, impedindo-se de participar dos rituais, de expressar seu pesar e ate mesmo de pedir ajuda.

Colin Murray Parkes (1998) apresentou resumidamente as condições que encontramos para luto e luto não reconhecido e o que podemos fazer para, como profissionais, ajudar essas pessoas a enfrentar seu luto de maneira saudável. Esse autor destaca que profissionais da saúde podem ser os únicos em posição de ajudar pessoa que vivem um luto não reconhecido.

Artigos, Experiências pessoais

O idioma secreto da morte

Tela ou quadro Plañideros, ou carpideiras
Painel encontrado no túmulo do cavaleiro Sancho Sánchez Carrillo e sua mulher, Juana. O artista, de nome desconhecido, produziu a obra por volta de 1295. No desenho, há carpideiras, que choram, arrancam os cabelos e machucam seus rostos.

– Doutor, me fala, ele vai morrer?

– O dano foi importante, mas qualquer prognóstico é prematuro.

– Mas ele pode ficar bom?

– Precisamos aguardar a evolução do quadro. A cirurgia acabou há pouco tempo.

– Por que ele ainda está na sala da operação?

– Temos que estabilizá-lo.

– Doutor, me fala tudo. Eu quero saber das coisas.

– A psicóloga do hospital vai procurar a senhora.