Artigos, Experiências pessoais

Covarde

deixando de crer em deus
Ilustração do texto: Covarde

 

Um ano antes do meu marido morrer, eu tinha ido para Lavras da Mangabeira, no sertão do Ceará, a cidade da minha família, para ver o enterro do meu tio Miranêz. Vovó teve dez filhos e, aos seis primeiros, deu nomes que começam com Mir: Miranilde, Mirialdo, Miraneudo, Miranildo e a minha mãe, Mirian, que no Ceará, fala Miriã. Na época dos quatro últimos filhos, vovó radicalizou: vieram Pedro e José. E também Edna e Edinardo, que fizeram a transição entre os grupos dos com e sem Mir.

Eu tenho ainda um tio chamado Brilhante. Mas ele é filho de vovô Fiel com outra senhora. Fiel era o apelido de vovô na cidade, porque ele era muito honesto. Fiel, vejam só, teve ao menos outros três filhos fora do casamento. Na minha família tem a conversa de que vovô também é o pai do Zé Ramalho, o “Avorrai” – que na verdade, é “Avô Rai”, de avô Raimundo, o avô dele; que não é o pai de vovô. O tio Miranêz era a cara do Zé Ramalho.

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O idioma secreto da morte

Tela ou quadro Plañideros, ou carpideiras
Painel encontrado no túmulo do cavaleiro Sancho Sánchez Carrillo e sua mulher, Juana. O artista, de nome desconhecido, produziu a obra por volta de 1295. No desenho, há carpideiras, que choram, arrancam os cabelos e machucam seus rostos.

– Doutor, me fala, ele vai morrer?

– O dano foi importante, mas qualquer prognóstico é prematuro.

– Mas ele pode ficar bom?

– Precisamos aguardar a evolução do quadro. A cirurgia acabou há pouco tempo.

– Por que ele ainda está na sala da operação?

– Temos que estabilizá-lo.

– Doutor, me fala tudo. Eu quero saber das coisas.

– A psicóloga do hospital vai procurar a senhora.