Covarde

deixando de crer em deus
Abandonando a religião

Um ano antes do meu marido morrer, eu tinha ido para Lavras da Mangabeira, no sertão do Ceará, a cidade da minha família, para ver o enterro do meu tio Miranêz. Vovó teve dez filhos e, aos seis primeiros, deu nomes que começam com Mir: Miranilde, Mirialdo, Miraneudo, Miranildo e a minha mãe, Mirian, que no Ceará, fala Miriã. Na época dos quatro últimos filhos, vovó radicalizou: vieram Pedro e José. E também Edna e Edinardo, que fizeram a transição entre os grupos dos com e sem Mir.

Eu tenho ainda um tio chamado Brilhante. Mas ele é filho de vovô Fiel com outra senhora. Fiel era o apelido de vovô na cidade, porque ele era muito honesto. Fiel, vejam só, teve ao menos outros três filhos fora do casamento. Na minha família tem a conversa de que vovô também é o pai do Zé Ramalho, o “Avorrai” – que na verdade, é “Avô Rai”, de avô Raimundo, o avô dele; que não é o pai de vovô. O tio Miranêz era a cara do Zé Ramalho.

No velório, que aconteceu na sala da casa de vovó, num calor de quase 40 graus, foi servida canja. Os pés das galinhas vinham pendurdos na cumbuca. Espalhados pela casa, à mão de quem precisasse, havia comprimidos de Frontal – uma das graças de se ter dez médicos na família. A mistura de galinha quente na sala quente, Frontal, tristeza, café e reza de mulheres em looping, por horas, me deixaram super sensível aos acontecimentos que ainda seriam performados naquela tarde.

Atrás do caixão tinha um banner de Jesus Cristo, pintado à tinta. Numa hora de desespero grande, minha madrinha, tia Nida (a Miranilde) ficou muito brava com Jesus Cristo e esmurrou a pintura, gritando: “Seu covarde! Covarde! Foi muita covardia sua levar meu irmão!”. Tia Nida já tinha ficado muito brava com a mãe do Jesus Cristo antes, quando vovô morreu. Ele morreu de soluço. Cistos nos rins e a hemodiálise o deixaram soluçando por quase dois anos. Na UTI, vovô pedia: “Valhei-me, minha Nossa Senhora das Dores. Me ajuda”. Tia Nida chorava muito, mas cada vez que vovô chamava pela santa, ela recomendava: “Papai, deixe de chamar por ela. Essa (piiiii) não está ajudando em nada”.

O caixão de tio Miranêz, antes de seguir para o cemitério, cujo caminho percorremos todos a pé (40 graus, lembrando), fez uma escala na igreja. A mesma em que fui batizada, há quase 40 anos; e que, na ocasião, enfezei o padre. É que a bacia em que ele me benzia era de plástico azul, igual à que eu tomava banho, instalada em cima da mesa da cozinha de vovó. Por causa do calor de maçarico, eu queria me tacar na bacia. Então, berrei que só. Essa bacia, aliás, foi a mesma em que vovó me levou de carro, imersa em água, numa viagem de Lavras a Fortaleza. Que durou seis horas. Vó, né.

Com a morte do filho, vovó botou luto. Aos quase cem anos, ela é vaidosa na medida de costurar o furinho das orelhas, porque eles rasgam quando ela coloca brinco. Costurou, cicatrizou, ela pendura brinco de novo. Eu também tenho as orelhas rasgadas. Mas não tenho coragem de costurar. E elas já foram também de abano. Ainda bem que a minha mãe, essa sim, teve coragem de me mandar para uma plástica quando eu tinha seis, atenção, seis anos. Minha mãe tinha se inspirado num tio dela, que enviou de uma vez só as quatro filhas orelhudas para a faca.

O luto de vovó durou um ano. Ela só usava preto, nenhum brinco, esmalte ou maquiagem. No finzinho dele, foi visitar o padre e, na volta para casa, passando pela praça da Matriz, a saia dela caiu no chão. O jardineiro da praça, que estava perto, abaixou a cabeça, mas vovó só fez foi rir. E disse: “graças a Deus que não foi na frente do padre”. Quando eu soube desse riso, entendi que a tristeza dela começava a ficar mais fluida. E tive certeza disso, quando vi no Facebook uma foto sua, com vestido colorido, entregando um envelope pro padre. Liguei para ela e perguntei o que tinha no envelope. “Sabe o que foi, minha filha”, vovó disse. “Eu prometi a Deus que se ele levasse minha dor eu ia dar uma ajuda bem grande à igreja. E ele levou, minha filha”.

Eu queria que deus também levasse a minha dor. Mas isso não vai acontecer. Primeiro, porque eu não acredito em deus. Segundo, porque depois que o meu marido morreu, peguei todos os santos que tinha em casa e joguei na lata do lixo.

 

Texto por Juliana Linhares, jornalista.

Um comentário sobre “Covarde”

  1. maria da aparecida saldanha disse:

    Que lindo texto ! Tão, tão sensível
    Torço pra sua tristeza ir desaparecendo, desaparecendo….e alguém falar,acho que a tristeza da Juliana está mais fluida.

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