Eu posso me sentir em luto quando alguém famoso morre?

“O luto não reconhecido é um paradoxo e por isso pode ser intensificado. A pessoa vivencia o luto, mas os suportes sociais usuais estão ausentes”. Kenneth J. Doka

Na última segunda-feira, recebemos a triste notícia da morte do jovem cantor Gabriel Diniz, que ficou famoso com sua música “Jennifer” e também recentemente da cantora Beth Carvalho. Veículos de comunicação de todo o país noticiaram as despedidas de famosos e de fãs de todo o Brasil que quiseram render as últimas homenagens às celebridades. Mas é possível sentir luto quando alguém famoso morre?

As celebridades – atrizes, atores, cantores, entre outros profissionais – fazem parte, de certo modo, do nosso cotidiano. Ouvimos suas canções, acompanhamos séries, filmes, novelas e, por meio de sites e blogs, sua intimidade e relacionamentos. Acabamos por construir algum tipo de relação com essas pessoas, seja por admiração ou curiosidade. Mas a morte também acomete as “estrelas” e por vezes nos sentimos desorientados, sem saber se “podemos” nos sentir tristes quando um famoso morre, afinal, esta pessoa não fazia parte “de fato” de nossas vidas.

O luto por uma celebridade é um tipo de luto não reconhecido, termo cunhado pelo Prof Dr. Kenneth J Doka, professor de Gerontologia na Universidade de New Rochelle, Consultor Sênior da Hospice Foundation of America e especialista em temas relativos à morte, morrer e luto, com diversas obras publicadas. Segundo Doka, “a definição de luto não reconhecido fala de uma perda que não pode ser aceita socialmente, abertamente reconhecida ou ter seu luto vivido publicamente.

Como lembra Doka, cada sociedade tem suas próprias regras do luto, ou seja, os sentimentos e formas de se portar em relação ao luto que são aceitos pela maioria. Assim, no México, por exemplo, o Dia dos Mortos é um dia de celebração e festa, no qual o morto é lembrado, bem como o que gostava de comer e beber. A cultura oriental também é bastante distinta da ocidental em relação à morte: usa-se branco ao invés do preto e a morte é celebrada com alegria, significando renascimento.
No caso da morte de uma celebridade no Brasil, por exemplo, nossa sociedade até aceita que as pessoas prestem homenagens, deixem flores ou acompanhem o cortejo quando este é aberto ao público. Mas e se a dor continua e o pesar acaba limitando o enlutado de algum modo – uma pessoa comum e não de contato próximo com o artista passa a não conseguir trabalhar, por exemplo – isso não é compreendido.

Segundo Doka, o luto não reconhecido tem justamente este agravante: além da dor do luto, o enlutado não é visto com empatia, por isso, não tem o suporte necessário para seu enfrentamento, para passar pelos altos e baixos típicos do processo e evoluir, podendo, inclusive, passar a vivenciar um luto complicado (quando o indivíduo não consegue seguir coma vida e fica preso no sofrimento).
“Luto não reconhecido é luto. É simplesmente luto. Mesmo que as outras pessoas não o reconheçam, ele é vivenciado como luto”, afirma o professor.

Doka relata na videoaula “Luto não reconhecido”, disponível na plataforma One Life Alive, alguns casos deste tipo de luto vivenciados por seus pacientes e destaca algumas técnicas que podem ser empregadas para dar suporte a quem tanto precisa de ajuda, mas que não conta com a empatia dos demais.

Ele fala, por exemplo, sobre a importância de nomear o luto. Dizer ao paciente que aquilo que ele está vivenciando é um luto não reconhecido e que merece ser tratado. “Temos que ser sensíveis a todas as perdas que as pessoas vivenciam, ao significado que tais perdas tem para elas”, destaca.

Então ao invés de dizer “Há muitos outros cantores tão bons quanto esse”, o terapeuta ou quem fizer esse papel de acolhimento poderá dizer “eu entendo a sua dor. Eu imagino o quanto você está sofrendo”.

Outras recomendações do professor são: terapia ou grupos de apoio, aconselhamento e os rituais do luto. No caso dos rituais, o terapeuta pode ajudar a encontrar uma forma de o paciente marcar a passagem de quem partiu, como acompanhar o velório se possível, enterrar de forma simbólica algum objeto, fazer algum tipo de homenagem, entre outras possibilidades, desde que façam sentido ao enlutado.
“O luto não reconhecido é um paradoxo e por isso pode ser intensificado. A pessoa vivencia o luto, mas os suportes sociais usuais estão ausentes”, destaca.

Saiba mais sobre o tema na videoaula “Luto não reconhecido”. Acesse : http://www.onelifealive.org/shop/luto-nao-reconhecido-palestra-com-prof-dr-kenneth-j-doka/

 

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