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O luto coletivo nos faz chorar nossas próprias dores

Nos primeiros três meses de 2019, o Brasil passou por uma série de tragédias que culminaram na morte de centenas de pessoas: o rompimento da barragem em Brumadinho, as chuvas no Rio de Janeiro, o incêndio no centro de treinamento de base do Flamengo e agora, o assassinato de alunos e funcionários de uma escola em Suzano, São Paulo. O sentimento é de luto coletivo, momento pelo qual cada um nós se sensibiliza pela dor do outro e chora as próprias dores.

Na avaliação da psicóloga Dra. Maria Helena Pereira Franco, o luto coletivo é uma possibilidade de entrar em contato com o luto particular, mantido em privado, muitas vezes reprimido por questões diversas (porque a pessoa acredita que precisa ser forte ou por conta de nossa própria sociedade que praticamente exige que as pessoas elaborem seu luto de forma rápida e, portanto, superficial). 

De acordo com Maria Helena, as grandes tragédias são de fato sentidas mesmo por quem não tem nenhuma relação com as vítimas.

Assim como o luto individual, o luto coletivo também leva as pessoas a se questionarem sobre a finitude da vida e a elaborar novas concepções sobre a morte, revisitando suas crenças.

As grandes tragédias abalam nosso conceito de mundo presumido, desenvolvido pelo psiquiatra britânico Colin Murray Parkes. Trata-se do nosso modelo de mundo, no qual estão inseridas nossa concepção sobre nossos pais, sobre nós mesmos, nossas habilidades para lidar com situações limites, a proteção que esperamos dos outros – da política, do sistema penal, etc – o significado que damos às experiências, entre outras variáveis. “Tudo o que consideramos garantido faz parte do nosso mundo presumido”, segundo o psiquiatra. Assim, quando tragédias como essas que assolaram o país ocorrem, é fácil compreender que nossas garantias foram abaladas.

Portanto, ao chorarmos as dores dos outros, neste momento, estamos chorando as nossas dúvidas, medos, angústias, para então conseguirmos elaborar o nosso luto e ressignificar nossas vidas.

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Um comentário sobre “O luto coletivo nos faz chorar nossas próprias dores”

  1. Isabel Caberlon disse:

    Sempre pertinentes os comentários de nossa mestra Maria Helena. Aprendizado infinito! Obrigada!

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