Vamos falar sobre o luto? Conheça algumas iniciativas

Conheça algumas iniciativas que ajudam a elaborar o luto e acolher os enlutados

Todos nós, em algum momento de nossas vidas, vamos vivenciar o luto. Ainda assim, o tema não é tratado de forma aberta e espontânea em nossa sociedade. Cobra-se uma recuperação rápida dos enlutados, não se sabe como acolhê-los, e muitas vezes, no caso do luto parental (quando se perde um filho), os pais se veem sozinhos em sua dor porque os amigos, ao não saberem lidar com a situação, optam pelo afastamento. Mas falar sobre o luto é importante para a elaboração da dor.

Alguns projetos dedicam-se, justamente, a dar espaço para que as pessoas falem sobre seus lutos. Um deles é o “Vamos falar sobre o luto”, que se classifica como “plataforma digital de informação, inspiração e conforto para quem perdeu alguém que ama ou para quem deseja ajudar um amigo nessa etapa tão difícil. Uma tentativa de romper com o tabu e tornar a experiência menos triste e solitária”. Na página do projeto, é possível encontrar referências de grupos de apoio online e presenciais, histórias de enlutados e artigos sobre o tema, visando munir de informação e acolhimento quem tanto precisa de suporte.

Outro exemplo é a ong Amada Helena. Localizada no Sul do país, conta hoje com vários projetos focados na transformação social acerca do luto parental. Entre seus projetos estão o Dia das Mães de Anjo, que visa o acolhimento direto às famílias, através de uma tarde de programação voltada especificamente para elas, com atividades culturais, bem como falas sobre o processo de luto e o Encontro Multiprofissional, projeto dedicado a sensibilizar profissionais e estudantes da área da saúde, assim como demonstrar o impacto de um atendimento bem preparado após a perda e a importância do autocuidado.

Outra iniciativa que vem acolhendo enlutados é o Death Café. Idealizado pelo sociólogo e antropólogo suíço Bernard Cretazz, em 2004 – ele cunhou a expressão “sigilo tirânico para descrever o medo e a rejeição que a maioria tem de falar sobre a morte – o café tem como proposta reunir mensalmente pessoas para conversar sobre a finitude da vida. No Brasil, os encontros são realizados em São Paulo, Belo Horizonte e entre outras idades. Sem fins lucrativos, o evento oferece café e bolo aos convidados que podem falar de forma espontânea sobre seus lutos.

Em São Paulo, o Instituto Quatro Estações reúne profissionais de psicologia com a proposta de atuação em serviços para perdas e luto, a partir da experiência junto a pessoas que passam ou passaram por situações de luto em sua vida pessoal ou profissional. A proposta está fundamentada em princípios de Psicologia Clínica e Psicologia da Saúde e resulta da experiência junto a clínicas, hospitais, organizações, instituições de ensino e de pesquisa, entre outras, conforme descreve o site.

Já a One Life Alive é uma plataforma online sobre saúde emocional, cujo um dos temas trabalhados é o Luto. Destinada a profissionais da área da saúde, reúne videoaulas elaboradas pelas maiores referências mundiais em saúde, psicologia e psiquiatria. Entre as aulas destinadas ao tema estão: “Luto complicado” e “Teoria do Apego e Luto”, com o Prof. Dr. Colin Murray Parkes, “Luto e gênero”, “Luto não reconhecido” e “Viver com uma doença que ameaça a vida”, com o Prof. Dr. Kenneth J. Doka, “O manejo clínico do luto por suicídio, com a Dra Karen Scavacini, “Competências para trabalhar com luto”, com a Profa. Dra. Maria Helena Pereira Franco, “Luto parental: o enfrentamento da perda de um filho”, com a Dra Gabriela Casellato.

Em julho de 2019, o programa “Conversa com Bial” dedicou uma edição ao tema “Luto”, o qual contou com a participação da curadora da One Life Alive e uma das maiores especialistas em luto do mundo, Maria Helena Franco. Confira no link abaixo. Nas palavras do apresentador: “O luto é o lugar da memória, da permanência dos mortos entre os vivos”. Falar sobre o luto, é falar sobre essa permanência!

Referências:
Vamos falar sobre o luto?: http://www.vamosfalarsobreoluto.com.br

Ong Amada Helena: https://amada-helena.org/

Death Café: https://g1.globo.com/bemestar/blog/longevidade-modo-de-usar/post/2019/04/30/o-que-se-aprende-num-cafe-cujo-tema-e-a-morte.ghtml

Instituto Quatro Estações: http://www.4estacoes.com

“Conversa com Bial” sobre Luto: https://globoplay.globo.com/v/7752847/

Videoaulas sobre o luto na plataforma One Life Alive:
– Luto complicado: http://www.onelifealive.org/shop/luto-complicado-palestra-com-professor-dr-colin-murray-parkes/

– Teoria do apego e luto: http://www.onelifealive.org/shop/teoria-do-apego-e-luto-palestra-com-prof-dr-colin-murray-parkes/

– Luto não reconhecido: http://www.onelifealive.org/shop/luto-nao-reconhecido-palestra-com-prof-dr-kenneth-j-doka/

– Luto e gênero: http://www.onelifealive.org/shop/luto-nao-reconhecido-palestra-com-prof-dr-kenneth-j-doka/

– Competências para trabalhar o luto:  http://www.onelifealive.org/shop/palestra-competencias-para-trabalhar-com-luto-com-a-profa-dra-maria-helena-pereira-franco/

– Manejo clínico do luto por suicídio: http://www.onelifealive.org/shop/manejo-clinico-do-luto-por-suicidio-palestra-com-a-profa-dra-karen-scavacini/

– Luto parental: o enfrentamento da perda de um filho: http://www.onelifealive.org/shop/luto-parental-o-enfrentamento-da-perda-de-um-filho-dra-gabriela-casellato/

 

 

 

Como deve ser a comunicação entre um profissional da saúde e seu paciente?

Cada gesto conta na comunicação entre paciente e profissional da saúde

“O simples fato de o doente se sentir compreendido já é terapêutico”. A frase é do médico, psiquiatra e professor universitário Julio Machado Vaz em entrevista ao site português Sapo LifeSytle. A comunicação terapêutica, seja ela no cuidado de quem está no hospital provisoriamente ou sob cuidados paliativos (no hospital ou em casa), merece destaque. A forma como o profissional da saúde se comunica com o paciente tem total relação com a fluidez do tratamento, e, muitas vezes, contribui para um quadro de memória. É preciso estar atento à comunicação verbal e não verbal.

Nas palavras de Vaz “A relação médico-doente deve ser o encontro entre dois sujeitos em que um é especialista em doenças e o outro na sua doença. Ambos têm modelos explicativos para as queixas. Da sua articulação nasce uma aliança terapêutica que permite decisões partilhadas quanto ao melhor tratamento”.

As ideias do professor vão ao encontro do que prega a Profa Dra Maria Julia Paes da Silva, estudiosa da área da Comunicação e com longa carreira dedicada à emergência de hospitais. Ela destaca que o profissional da saúde deve sempre assumir um comportamento terapêutico, ou seja, de colocar algo que sabe à disposição do outro e lembrar que está ali por sua própria escolha a serviço de alguém que necessita de cuidados.

Autora de obras como “Comunicação tem remédio”, “O amor é o caminho – maneiras de cuidar”, entre outras, Maria Julia dá ênfase ao cuidado com a comunicação não-verbal também. Segundo a professora, é preciso respeitar o espaço pessoal de cada paciente e estabelecer um vínculo de confiança para que o tratamento seja bem assimilado. Um gesto que não condiz com o que o profissional da saúde está dizendo quebra essa confiança, uma vez que uma pessoa enferma fica muito mais atenta às ações do seu interlocutor. Uma dica muito simples, mas que faz total diferença é sempre dizer o que vai fazer para o enfermo e dar-lhe um tempo para assimilar o próximo passo. Por exemplo: informar que vai trocar a roupa e não ir simplesmente desabotoando uma camisa.

“Não tem como cuidar sem invadir o espaço pessoal e para tanto é preciso ler a comunicação não verbal dessa pessoa para entender o quanto ela tolera essa aproximação”, explica.

Em artigo para o Portal Educação, a enfermeira e farmacêutica Margareth Oliveira Amâncio , especialista em saúde pública, urgência e emergência, lembra que é importante que o profissional da saúde conheça e entenda a classe, a situação socioeconômica e cultural dos seus usuários para que assim possa estabelecer um planejamento de comunicação mais adequado e esclarecedor para seu público. “De nada adianta manter o mesmo diálogo terapêutico direcionado a um público jovem para uma pessoa idosa com certas debilitações, pois a maneira de receber, perceber e decifrar desses dois públicos são diferentes”, destaca.

Segundo artigo do PEBMED – portal especializado em conteúdos médicos, são erros comuns na comunicação com o paciente:
1. Desviar o olhar e focar a atenção na tela do computador enquanto o paciente está falando;
2. Deixar transparecer ao paciente que está com pressa;
3. Fazer apenas perguntas fechadas (que comporta apenas respostas “sim” ou “não”)
4. Não dar importância ao problema do paciente;
5. Não permitir momentos para perguntas.

Para quem deseja melhor a comunicação com uma pessoa enferma, a professora Maria Julia aponta cinco pontos que não devem ser esquecidos pelos cuidadores:

1. Fundamento da relação: lembrar que está ali porque escolheu aquele trabalho e que inevitavelmente precisará lidar com pessoas que não estão bem, estão fragilizadas;
2. Dimensão cognoscitiva: o diagnóstico é fundamental para o tratamento, mas é preciso lembrar continuamente que o enfermo não se resume à sua enfermidade. É necessário ampliar o olhar e ter em mente em que momento da vida aquela pessoa está. Por exemplo: uma pessoa jovem que recebeu um diagnóstico de uma doença grave, uma pessoa que está no meio de um grande projeto pessoal e de repente se vê impossibilitada de seguir adiante, entre outras possibilidades;
3. Dimensão operativa: cada ação conta e até a forma como o profissional da saúde cumprimenta ou toca o paciente interferirá na forma como a relação vai fluir;
4. Dimensão afetiva: é preciso saber dosar a relação de afeto, no sentido de que a todo momento nós afetamos as pessoas e somos afetadas por elas. Tendo isso em mente, é importante se questionar: “de que modo posso falar com aquela pessoa tão fragilizada?” ou “como posso suavizar sua dor”, entre outros exemplos.
5. Dimensão ética religiosa. A ética deve prevalecer, bem como o respeito a uma orientação religiosa diferente entre paciente e enfermo.

Assim, e preciso lembrar, como destaca a Maria Julia, que “somos mensagem pelos nossos gestos, expressões faciais, postura corporal, pela distância que a gente mantém das pessoas e inclusive pelo tom de voz que a gente fala com elas”.

Referências:
Se deseja saber mais sobre comunicação terapêutica, assista à videoaula com a Profa Maria Julia Paes da Silva: http://www.onelifealive.org/shop/comunicacao-terapeutica-o-resgate-do-ser-profa-palestra-com-dra-maria-julia-paes-da-silva/

Leia aqui a entrevista do professor Julio Machado Vaz ao site português Sapo: https://lifestyle.sapo.pt/saude/noticias-saude/artigos/a-relacao-medico-doente-o-simples-facto-de-o-doente-se-sentir-compreendido-e-em-si-mesmo-terapeutico?fbclid=IwAR2W2Hp5hTN_qCHffdDrFH81FFA5cZDFHlEw7NM6LiTn0Hhp473YTnRGTHs#_swa_cname=sapolifestyle_share&_swa_cmedium=web&_swa_csource=facebook&utm_source=facebook&utm_medium=web&utm_campaign=sapolifestyle_shar

Confira aqui o artigo da enfermeira Margareth Oliveira Amâncio: https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/farmacia/comunicacao-um-grande-desafio-entre-os-profissionais-de-saude-e-o-paciente/14659

Leia na íntegra o artigo da PEBMED sobre os erros mais comuns na comunicação com o paciente: https://pebmed.com.br/5-erros-comuns-na-comunicacao-com-o-paciente/amp/

 

Cuidados paliativos: alguns pontos de atenção para quem deseja atuar ou já atua na área

A importância do preparo para quem deseja trabalhar com cuidados paliativos

Segundo a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), atualmente existem hoje no Brasil 172 equipes atuando na área. De um total de 80 países, o Brasil ocupa a 42a posição no ranking de qualidade de morte realizado pela empresa britânica Economist Intelligence Unit.
Apesar ainda da pouca quantidade de equipes em atividade, considerando-se as dimensões do país, o número de pessoas atuando com qualidade em cuidados paliativos vem crescendo. Dados da ANCP mostram uma alta de quase 50% em um período de dois anos.

O tema “Cuidados Paliativos” reuniu líderes de diversos países para o 16o Congresso Mundial de Cuidados Paliativos da EAPC, em Berlim, em maio de 2019. Com o tema “Cuidados paliativos globais, moldando o futuro”, o evento trouxe à tona questões como a própria definição do que são os cuidados paliativos, como garantir a equidade no desenvolvimento de Cuidados Paliativos para as populações de países de baixa e média renda, bem como para grupos marginalizados (encarcerados, refugiados, pessoas em situação de rua, entre outros).

Não existe ex-mãe, ex-pai ou ex-filho: as conexões são eternas

Conexões entre pais e filhos permanecem após a morte

A perda de um filho na gestação é um luto não reconhecido

Uma mãe do interior de São Paulo perdeu uma de suas gêmeas ainda na gestação e resolveu homenagear sua filha com um ensaio fotográfico. As imagens, de uma doçura e profundidade tocantes, retratam a irmã recém-nascida ao lado de representações da irmã que não sobreviveu.

A mãe também escreveu uma carta à filha que partiu na “voz” da irmã que nasceu, falando sobre os vínculos entre as duas, a vontade de que permanecessem sempre unidas de alguma forma.

O luto gestacional é, infelizmente, um luto não reconhecido. Na concepção do Prof. Dr. Kenneth J. Doka, luto não reconhecido é quando a pessoa não tem seus sentimentos validados pelo próximo, como se não pudesse ou não devesse sentir o que está sentindo. No caso do luto gestacional, não se compreende como a pessoa pode sofrer por alguém que “nem existiu”, ou ainda comete-se o erro de dizer que a pessoa “tem outro filho” ou “pode ter mais filhos”, negligenciando-se, assim, a dor daqueles pais e irmãos e não se atentando para o fato de que uma pessoa não substitui outra.

Eu posso me sentir em luto quando alguém famoso morre?

“O luto não reconhecido é um paradoxo e por isso pode ser intensificado. A pessoa vivencia o luto, mas os suportes sociais usuais estão ausentes”. Kenneth J. Doka

Na última segunda-feira, recebemos a triste notícia da morte do jovem cantor Gabriel Diniz, que ficou famoso com sua música “Jennifer” e também recentemente da cantora Beth Carvalho. Veículos de comunicação de todo o país noticiaram as despedidas de famosos e de fãs de todo o Brasil que quiseram render as últimas homenagens às celebridades. Mas é possível sentir luto quando alguém famoso morre?

As celebridades – atrizes, atores, cantores, entre outros profissionais – fazem parte, de certo modo, do nosso cotidiano. Ouvimos suas canções, acompanhamos séries, filmes, novelas e, por meio de sites e blogs, sua intimidade e relacionamentos. Acabamos por construir algum tipo de relação com essas pessoas, seja por admiração ou curiosidade. Mas a morte também acomete as “estrelas” e por vezes nos sentimos desorientados, sem saber se “podemos” nos sentir tristes quando um famoso morre, afinal, esta pessoa não fazia parte “de fato” de nossas vidas.

O luto por uma celebridade é um tipo de luto não reconhecido, termo cunhado pelo Prof Dr. Kenneth J Doka, professor de Gerontologia na Universidade de New Rochelle, Consultor Sênior da Hospice Foundation of America e especialista em temas relativos à morte, morrer e luto, com diversas obras publicadas. Segundo Doka, “a definição de luto não reconhecido fala de uma perda que não pode ser aceita socialmente, abertamente reconhecida ou ter seu luto vivido publicamente.

A humanização na Saúde passa pelo investimento em estrutura e na capacitação dos profissionais

A capacitação do profissional da saúde deve ir além da técnica, envolvendo a dimensão humana

“Respeitar a individualidade e emoções do enfermo é fundamental para estabelecer um vínculo de confiança entre paciente e cuidador”
Professora Maria Julia Paes da Silva

Todos sabemos que a Saúde Pública no Brasil carece de mais cuidados. Pesquisa do DataFolha de 2017, encomendada pelo Conselho Federal de Medicina, mostrou que mais da metade dos brasileiros (54%) avalia o atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) como ruim ou péssimo. É preciso investir em tecnologia, estrutura e capacitação dos profissionais.

Quando falamos em capacitação, vamos além do treinamento em manuseio de aparelhos e sistemas. É urgente mostrar a necessidade de se conectar com o paciente, mostrar-se empático a sua dor e seu momento, ou seja, atender sem perder a dimensão humana.

Você sabe como ajudar uma pessoa em luto?

Por mais que o debate sobre o luto tenha se ampliado no Brasil, o tema ainda é tabu.

As pessoas evitam falar sobre o luto e, principalmente, evitam falar sobre quem partiu com o enlutado.

Há situações que o luto é tão devastador – como na perda de um filho, por exemplo – que as pessoas preferem não apenas evitar falar sobre o ocorrido como se afastar dos enlutados por total falta de conhecimento sobre como agir.

Enfermeiro do Samu canta para paciente com suspeita de infarto

Como estabelecer um vínculo entre cuidador e paciente durante o atendimento médico

Viralizou na internet um vídeo no qual um enfermeiro do Samu – Flavio Vitorino Costa, de 55 anos – canta para um idoso de 87 anos ao socorrê-lo por suspeita de infarto.

O senhor gostava de bolero, mas não se recordava de nenhum (por conta do Alzheimer) e então Flávio passou a cantar, no que foi acompanhado. 

A perda de um filho: como sobreviver a essa dor?

Como sobreviver a dor da perda de um filho?

Tema difícil, denso, devastador. Mas é preciso falar a respeito. É preciso acolher mães, pais, irmãos, avós, familiares e amigos que faziam parte daquela vida que se foi. Ou daquela vida que não “se concretizou”; partiu antes de ser de fato. Como continuar? Como recomeçar?

A doutora Gabriela Caselatto, cofundadora, professora e supervisora do 4 Estações Instituto de Psicologia, aborda o assunto em uma videoaula para a One Life Alive, plataforma de educação online sobre saúde emocional.